domingo, 10 de julho de 2011

O culto

"Os anos se passaram como as páginas perdidas em minha memória de todos os livros que li ", pensava Nelson deitado em sua cama em um sábado à noite, olhando para o teto.

Depois que sua mãe morreu misteriosamente, há 2 anos atrás, se afundou nos livros. Tinha lido de Jack Kerouac até Aleister Crowley. Tudo aquilo não significava mais nada para ele. Toda aventura, toda rebeldia, toda bruxaria não fazia sentido nenhum trancado em um quarto. Nem trabalhava mais. Estava vivendo com o dinheiro que sua mãe juntou guardando todo mês alguns trocados na poupança. Sua casa era seu mundo. Comida enlatada e whisky era tudo o que precisava.

"Preciso fazer um drink". Nelson se levantou e foi para a cozinha pegar um copo de whisky com gelo, quando o telefone tocou. Antes de pegar o telefone, observou pela janela sua vizinha o observando fixamente. "Alô, quem fala?". A vizinha continuava a olhar. Ela parecia saber as frases que iriam sair daquele telefone. "Nelson, você está me escutando? Vamos para aquele pub em que você passou mal no ano novo? Você precisar sair dessa merda de quarto, dar umas risadas. Vamos lá!". Rodrigo era um bom amigo. Nunca desistiu de ligar para Nelson em tentativas frustadas de tirá-lo dali desde que sua mãe morreu. Talvez hoje fosse um bom dia para recomeçar. "Rodrigo, vamos sim. Estarei lá as 11".

Nelson entrou no banheiro para se arrumar e, antes que colocasse o primeiro pé no chuveiro, a campainha tocou. Ele colocou seu roupão e foi atender. "Boa noite Sr Nelson.". Sr McCoy era o síndico do prédio. Um inglês arrogante viciado em Gauloises e cerveja barata. "O Sr Cardoso reclamou do barulho que você anda fazendo de madrugada. É melhor parar com isso ou vou tomar providências". Como de costume, sr McCoy se virou sem dar uma chance de resposta para Nelson. "Eu não faço nada a não ser ler livros, não faço barulho algum", disse Nelson no vácuo do corredor.

11 da noite. Nelson chegou ao pub. Rodrigo o esperava na porta. "Nelson, não acredito que você veio!", disse Rodrigo enquanto abraçava Nelson. Dois velhos amigos de infância de Nelson estava juntos com Rodrigo. Nelson olhou para a mão de um deles e notou que ela estava completamente podre. Ele passou a mão sobre seus olhos e olhou novamente. Foi apenas sua imaginação. Talvez pelos meses de exílio em sua casa.

Depois de muita conversa e muita bebida Nelson se sentia cheio de tudo aquilo. Queria voltar para seus livros, mas achava chato ir embora naquele momento. "Pessoal, preciso ir ao banheiro", disse Nelson se levantando da mesa. "Espere!", disse Rodrigo. "Vamos tomar o drink especial da casa comigo, peguei um pra mim e um pra você". Nelson tomou o drink rapidamente e seguiu seu caminho para o banheiro.

Chegando ao banheiro, Nelson olhou para o espelho. Estava completamente suado. Não tinha notado isto até o momento. Ele olhou em seu rosto e percebeu que tinha um corte que sangrava sutilmente. Se aproximou do espelho para analisar o corte quando escutou um sussuro. Ele olhou para trás e apenas viu um mictório sujo e alguns cigarros apagados no chão. Ele escutou novamente o sussuro. Era um sussuro de dor. Um sussuro assustador. Ele olhou por debaixo da porta de um dos banheiros que estava com a porta fechada e notou que não tinha ninguém ali. Quando se levantou, viu um vulto atrás dele. Uma mulher de 2 metros de altura, com cabelos negros e longos, vestida completamente de branco. "Fuja", sussurou a mulher. Ele se assustou com aquela visão e saiu correndo. Ao abrir a porta do banheiro, trombou com Rodrigo que o assustou. "O que foi Nelson? Achei que estivesse passando mal aí dentro. Todos estão te esperando".

Quando Nelson saiu do banheiro notou algo estranho. O lugar estava com as luzes apagadas e repleto de velas vermelhas. Todas as mesas tinham sumido. Ele andou mais um pouco e notou que todas as pessoas estavam vestidas de preto e usando um capuz preto. Estavam em volta de uma mesa mas ele não podia ver o que estava ali no centro. Nelson deu um passo para trás numa tentativa de fuga quando esbarrou em alguém. Ele olhou para o rosto da pessoa e percebeu que era o Sr McCoy, vestido completamente de preto mas sem capuz. "Sr Nelson, o que você vai fazer em relação ao barulho? O que você está fazendo não é certo. As providências devem ser tomadas". Uma porta se abriu e Rodrigo apareceu com um capuz branco em suas mãos. Ele colocou na cabeça de Nelson que sentiu seu corpo completamente paralisado. Nelson se sentiu atordoado. Sentiu as luzes em sua volta ficarem cada vez mais fracas. Alguns segundos depois, apagou completamente.

Nelson acordou, ainda atordoado, e percebeu que estava deitado em uma mesa, completamente nu, rodeado de pessoas vestidas de negro. Eles faziam uma espécie de oração e um deles ficava movimentando uma bola de ferro que soltava uma fumaça em volta de Nelson. Nelson sentia seu corpo cada vez mais dormente. De repente, do meio de todos apareceu uma mulher negra completamente nua. Seus olhos eram verdes e brilhantes. Ela fazia uma dança estranha. Tinha uma faca afiada em sua mão. O cabo da faca era uma cobra em forma de oito comendo o seu próprio rabo. A mulher subiu em Nelson e dançou conforme a velocidade da reza que estavam fazendo, aumentando a velocidade cada vez mais. Ela se pôs de joelhos sobre Nelson, e ele escutou um sino tocar. Todos ficaram em silêncio. A mulher levantou a faca e a cravou no peito de Nelson que não conseguiu gritar de tão atordoado que estava.

Nelson acordou. Olhou para todos os lados. Estava em sua casa, foi tudo um sonho. Eram 3 da manhã. Ele escutou o telefone tocar e foi atendê-lo. A luz no apartamento da vizinha estava acessa e ela continuava a observá-lo. "Alô"- murmurou Nelson, ainda com sono. "Sr Nelson, aqui é o Sr McCoy. Você continua fazendo barulho. Achei que você iria mudar seu comportamento diante das providências tomadas. O caminho que você escolheu não tem mais volta. NÃO TEM MAIS VOLTA". Nelson olhou pela janela e viu que todas as luzes de todas as janelas estavam acessas, e todos os vizinhos o observavam vestindo um capuz preto. Ele escutou a mesma reza de seu sonho ecoar por todos os lados. Todos estavam cantando aquele hino. Ele não entendia uma palavra. Mas sabia o que era aquilo. Estavam louvando o diabo. Estavam evocando o diabo para cravar uma faca em seu peito mais uma vez.

"Não! Dessa vez não!". Nelson correu em direção a janela da sala e se atirou por ela. Ele se espatifou no terraço e sentia o sangue em sua garganta dificultando sua respiração. Tudo ao seu redor escurecia cada vez mais, mas ainda pode notar alguém se aproximando. Era o Sr McCoy. "Nelson, o que aconteceu? Você está bem?". "Eu não vou fazer mais barulho, me desculpe", respondeu Nelson com muita dificuldade. Por um instante, Nelson achou que tudo aquilo fosse coisa de sua cabeça, que os meses de isolamento tinham o feito enlouquecer completamente e aquele era o seu fim. Quando ele abriu os olhos, viu uma multidão de pessoas com capuz vestidas de negro atrás de Sr McCoy. Eles começaram a cantar novamente e a mulher negra saiu do meio deles dançando. O Sr McCoy vestiu um capuz negro e começou a dizer: "Senhores, o diabo, nosso pai eterno, esta prestes a voltar. A viúva negra veio do inferno para encerrar sua missão". O Sr McCoy se aproximou de Nelson e continuou com suas palavras. "Essa criatura imprestável foi apenas um meio para trazer nosso Senhor de volta. A viúva negra irá encerrar o culto, dar o último passo para a vinda dele." A mulher negra se aproximou dele. Ela estava diferente. Agora tinha uma pele turva e escamosa - parecida com a de um peixe, tinha espinhos em seus braços e unhas afiadas como faca. Seus olhos verdes brilhavam de forma hipnótica, deixando-o levemente sonolento. Subitamente, levantou um de seus braços e o cravou no peito de Nelson.

Antes de morrer, Nelson ainda pode escutar as palavras de Sr McCoy: "O diabo está nas entranhas de nossa rainha. O culto chegou ao fim. Vamos celebrar na casa do Sr Cardoso. O silêncio o incomodou demais ao longo destes anos. As providências foram tomadas. Nosso Senhor vai voltar!"

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Limite vermelho

John era um homem exemplar. Pai de família, trabalhava duro todos os dias das 9 às 6 para sustentá-la. Era reconhecido por seu trabalho, adorado por todos e sempre andava com um sorriso no rosto.

De uns meses pra cá, John se sentia um pouco confuso com o rumo que sua vida estava tomando. Queria passar mais tempo com os filhos, mas o excesso de trabalho o deixava estressado e cansado. No começo, aliviava suas dores tomando alguma bebida no bar no caminho de casa. Sem ele perceber, isso virou rotina. Depois de um tempo, um vício.

Em uma quinta-feira, saindo de seu trabalho, John sentiu uma dor horrível na parte de trás de sua cabeça. Parecia que tinha um verme gigante sugando todas as energias que restavam em seu corpo cansado. Parou, como de costume, no bar no caminho de sua casa e pediu uma cerveja. Quando John foi tomá-la percebeu que o copo estava vazio. Ele não lembrava de ter tomado a bebida. Pediu outra. Quando o copo chegou em sua boca, percebeu novamente que o copo estava vazio. John ficou furioso e gritou para o garçom:
- Hei, o que aconteceu com minha cerveja??
O garçom, um japonês de pele oleosa e sorridente, simplesmente olhou para John com um olhar de reprovação e mexeu a cabeça ignorando-o.

John achou que o problema fosse com a cerveja e resolveu pedir um copo de vodca com gelo. Para sua surpresa, conseguiu sentir o prazer do líquido passeando por sua garganta. Quando terminou o copo, pediu outra para o garçom japonês.
- Outra? Cara, você já tomou 85 doses!

John não entendeu aquilo. Tinha tomado apenas uma dose. Quando foi responder o garçom, sentiu uma tontura que quase o levou para o chão. Sua visão ficou embaçada e tudo parecia branco com pontos vermelhos brilhante, como estrelas. Sentiu uma dor de barriga incontrolável que parecia uma faca rasgando seu intestino. John correu para o banheiro, abaixando as calças no meio do caminho. Quando chegou lá, nem deu tempo de sentar na privada. Começou a cagar na porta e ao sentar na privada, ficou impressionado com a quantidade de merda que saia.
- Não comi tanto no almoço hoje, pensou John.

Ao terminar, resolveu dar uma olhada na privada e ali não tinha nada marrom. Estavam ali seu intestino e muito sangue. John sentiu uma ânsia de ver tudo aquilo e começou a vomitar. De sua boca saiam sangue e vermes que se mexiam como se estivessem sendo eletrocutados. John desmaiou e bateu a cabeça na pia antes de encontrar o chão.

O japonês abriu a porta do banheiro e ao ver aquilo apagou a luz e trancou a porta.

John acordou e pensou "Ufa! Foi tudo um pesadelo". Levantou-se no quarto escuro e caminhou até o interruptor ao lado da porta para ligar a luz. Quando ligou, percebeu que estava em um quarto todo pintado de branco, sem janelas e com paredes manchadas de sangue. John pensou em gritar mas a voz não saia. Colocou a mão em seu pescoço e percebeu que ele estava aberto, assim como seu peito e sua barriga. Ele podia ver os vermes comendo seus orgãos. Antes de afundar no chão, que o sugava como areia movediça, pode ler uma frase escrita com merda na porta: "Esta foi a sua vida".