Dona Neide adorava passar os dias na cozinha preparando os mais diversos tipos de pratos. Depois que seu marido morreu na Segunda Guerra Mundial, a culinária aliviava todas suas dores, saudades e mantinha sua cabeça ocupada. Tinha achado uma forma de enganar o tempo que estava consumindo seu corpo, o deixando cada dia mais frágil e debilitado.
Com seus cabelos grisalhos presos, peso um pouco acima da média e bochechas rosadas, preparava o jantar. Pegava sua faca afiada que parecia ter saido de um filme de terror, cortava o tomate em várias rodelas para fazer o molho. Pegava o pau de macarrão e o utilizava para preparar a massa. Colocava o bife no triturador e fazia a carne moída. Em alguns minutos tudo estaria pronto.
Mais um jantar sozinha. Outro rotineiro triste fim de semana.
Na sala de jantar, enquanto abria seu vinho do porto para saborear com o macarrão a bolonhesa que passou a tarde inteira fazendo, um barulho no apartamento vizinho começava a incomodar. Os Alfredo pareciam jovens de 18 anos que tinham acabado de descobrir o sexo. Passavam a noite inteira fazendo barulhos escandalosos que remetiam as noites que tinham com o seu falecido marido na juventude.
-Meu Deus, eles já tem filho grande, que indecência! Pensava Dona Neide imaginando o filho de 7 anos do casal tentando adivinhar que barulhos eram aqueles no quarto dos pais.
Depois de jantar e assistir a novela, era hora de dormir. Mal deitou na cama e os Alfredo recomeçaram seu show sexual nada particular naquelas finas paredes que os separavam de Dona Neide. Dona Neide sentou-se na cama e colocou seus óculos. Saiu de seu apartamento e bateu na porta dos Alfredo.
- Boa noite! Disse Dona Neide.
- Boa noite Dona Neide, algum problema? Responde Fábio Alfredo, usando apenas um shorts que mal disfarçava o volume ali escondido.
- Desculpe incomodar a essa hora da noite mas, o ralo da cozinha entupiu e a água do esgoto inundou tudo. Explica Dona Neide com um olhar misto de carência e tristeza.
Fábio entra para sua casa e, depois de alguns minutos, reaparece vestindo uma camiseta e com Júlia, que fazia questão de mostrar em seu rosto o incômodo que Dona Neide estava causando. Sádica, internamente, Dona Neide adorava ver aquilo.
- Por aqui, venham ver. Dizia Dona Neide abrindo a porta da casa para o casal.
Fábio chega perto do ralo na cozinha, agacha e dá uma olhada. Não vê nada de errado.
- Mas o ralo não está...
Dona Neide acerta um golpe certeiro na cabeça de Fábio com o pau de macarrão antes que ele faça suas conclusões. O sangue dele começa a pintar todo o piso anêmico do chão da cozinha. Júlia tenta correr mas Dona Neide pega uma faca que estava na pia e acerta o peito de Júlia. Júlia resiste e ainda tenta fugir mas Dona Neide acerta outra facada dilacerando sua cabeça.
- Vou ter que lavar a cozinha de novo amanhã. Diz Dona Neide furiosa olhando para todo aquele sangue.
Na manhã seguinte, o filho dos Alfredo bate na porta de Dona Neide aos prantos.
- Dona Neide! A senhora não vai acreditar! Meus pais sumiram e nem deixaram recado. O que eu faço?
- Calma, meu filho. Responde Dona Neide com um ar sereno. Se acalme. Vamos, entre e venha saborear uma torta de carne especial que passei a noite inteira fazendo.
terça-feira, 14 de junho de 2011
domingo, 12 de junho de 2011
Os corações de Jaqueline
No cair da noite, Jaqueline acendia seu Marlboro e colocava os pés na rua para mais um dia de trabalho. Cabelos tingidos de loiro com mechas vermelhas, uma roupa extremamente provocante, saltos altos vermelhos como o seu batom, que deixavam seus lábios como os da Courtney Love em seus tempos áureos antes da decadência.
Sentada na esquina, enquanto lixava suas unhas com sua lixa de metal, os homens mais bizarros que poderiam ser encontrados na noite faziam graça ao passar com o carro, menosprezando seu trabalho. Por 150 reais, fazia o serviço completo, realizava os desejos mais sujos daqueles babacas. E ela ainda tinha que suportar aquilo. Eram ossos do ofício, pensava ela.
Às duas da manhã, pára um Porsche branco em sua frente. Nunca tinha visto um daqueles tão de perto. “Ganhei o dia!”, pensou ela com um sorriso oculto em seu olhar sensual e esnobe. A porta do carro se abre e um homem de terno e gravata desce. Cabelos loiros curtos, olhos verdes e uma firmeza em seus passos que faziam ela imaginar todos os desejos que se passavam em sua mente.
Foram poucas palavras e negociações para ela entrar no carro. “Meu nome é Ricardo”, se apresentou o homem fino. Foram as únicas palavras que saíram de sua boca. O silêncio não incomodava ninguém, parecia parte do cenário daquela noite escura.
Em poucos minutos chegam ao seu destino. Ricardo estaciona em frente a uma casa enorme, com um gramado verde e bem aparado. Ele abre a porta para Jaqueline e eles entram na mansão enorme. A casa era linda por dentro, parecia uma casa que Jaqueline via em suas viagens de LSD na época em que tentou fazer uma faculdade para levar uma vida decente.
O casal sobe as escadas e entra em um quarto quente com uma cama enorme. Jaqueline observa tudo ao seu redor e começa a tirar sua roupa enquanto Ricardo a observa. Pele lisa, tatuagem em um lugar estratégico, um corpo feito para o pecado carnal. Ao deitar na cama, Ricardo tira sua roupa e se junta a ela para realizar os desejos mais sujos que se passaram em sua cabeça desde os 15 anos, quando se masturbava escondido no banheiro com as revistas pornográficas de seu tio.
Sentada na esquina, enquanto lixava suas unhas com sua lixa de metal, os homens mais bizarros que poderiam ser encontrados na noite faziam graça ao passar com o carro, menosprezando seu trabalho. Por 150 reais, fazia o serviço completo, realizava os desejos mais sujos daqueles babacas. E ela ainda tinha que suportar aquilo. Eram ossos do ofício, pensava ela.
Às duas da manhã, pára um Porsche branco em sua frente. Nunca tinha visto um daqueles tão de perto. “Ganhei o dia!”, pensou ela com um sorriso oculto em seu olhar sensual e esnobe. A porta do carro se abre e um homem de terno e gravata desce. Cabelos loiros curtos, olhos verdes e uma firmeza em seus passos que faziam ela imaginar todos os desejos que se passavam em sua mente.
Foram poucas palavras e negociações para ela entrar no carro. “Meu nome é Ricardo”, se apresentou o homem fino. Foram as únicas palavras que saíram de sua boca. O silêncio não incomodava ninguém, parecia parte do cenário daquela noite escura.
Em poucos minutos chegam ao seu destino. Ricardo estaciona em frente a uma casa enorme, com um gramado verde e bem aparado. Ele abre a porta para Jaqueline e eles entram na mansão enorme. A casa era linda por dentro, parecia uma casa que Jaqueline via em suas viagens de LSD na época em que tentou fazer uma faculdade para levar uma vida decente.
O casal sobe as escadas e entra em um quarto quente com uma cama enorme. Jaqueline observa tudo ao seu redor e começa a tirar sua roupa enquanto Ricardo a observa. Pele lisa, tatuagem em um lugar estratégico, um corpo feito para o pecado carnal. Ao deitar na cama, Ricardo tira sua roupa e se junta a ela para realizar os desejos mais sujos que se passaram em sua cabeça desde os 15 anos, quando se masturbava escondido no banheiro com as revistas pornográficas de seu tio.
Quando o ato foi consumado, Jaqueline sentiu suas veias pulsarem em seu corpo. Ia acontecer de novo. Nuvens negras esconderam a lua que iluminava o quarto pela janela e uma força incontrolável tomou seu corpo. Ela ficou de pé, nua na escuridão que invadiu o quarto que ainda tinha uma forte essência que o ato sexual libera no ar.
Pegou sua bolsa e procurou sua lixa de metal escondida entre moedas, notas amassadas e camisinhas que pegava no posto de saúde para economizar.
Com a lixa na mão deu um sorriso delicadamente infernal e caminhou em direção a cama. Subiu nela e se colocou de joelhos com as penas abertas entre o quadril de Ricardo, que dormia silenciosamente satisfeito.
Levantou a lixa e a cravou no peito de Ricardo que deu um suspiro desesperado, quase que silencioso. Jaqueline cavoucava em seu peito, como se fosse uma criança fazendo um castelo de areia na praia. Procurava por algo ali. O coração. Encontrá-lo no peito de Ricardo foi melhor que o orgasmo que tinha tido alguns minutos antes. Ela o arrancou de seu peito e o colocou dentro de sua bolsa. Vestiu sua roupa sem ao menos limpar o sangue, provas do crime fixadas em seu corpo. Desceu as escadas e fugiu no Porsche branco cantando os pneus pelas ruas.
Chegou a sua casa e, ao entrar na sala, todos os seus gatos vieram a seus pés, como súditos no inferno saudando e adorando o diabo. Ela desce para o porão, abriu um vidro vazio na prateleira e colocou o coração de Ricardo dentro. Encheu o pote com um vinho tinto velho que estava jogado em um canto, fechou o pote e disse algumas palavras em uma língua estranha olhando para cima, numa espécie de ritual wicca.
Era mais um coração entre as dezenas que ali se encontravam. Sua coleção crescia a cada noite, a prateleira estava quase cheia. Jaqueline se orgulhava daquilo. Só faltava descobrir o que ia fazer com todos eles. Talvez alguma noite, aquele mistério se revelasse e ela descobrisse porque nunca sentiu seu coração bater depois da meia noite.
Pegou sua bolsa e procurou sua lixa de metal escondida entre moedas, notas amassadas e camisinhas que pegava no posto de saúde para economizar.
Com a lixa na mão deu um sorriso delicadamente infernal e caminhou em direção a cama. Subiu nela e se colocou de joelhos com as penas abertas entre o quadril de Ricardo, que dormia silenciosamente satisfeito.
Levantou a lixa e a cravou no peito de Ricardo que deu um suspiro desesperado, quase que silencioso. Jaqueline cavoucava em seu peito, como se fosse uma criança fazendo um castelo de areia na praia. Procurava por algo ali. O coração. Encontrá-lo no peito de Ricardo foi melhor que o orgasmo que tinha tido alguns minutos antes. Ela o arrancou de seu peito e o colocou dentro de sua bolsa. Vestiu sua roupa sem ao menos limpar o sangue, provas do crime fixadas em seu corpo. Desceu as escadas e fugiu no Porsche branco cantando os pneus pelas ruas.
Chegou a sua casa e, ao entrar na sala, todos os seus gatos vieram a seus pés, como súditos no inferno saudando e adorando o diabo. Ela desce para o porão, abriu um vidro vazio na prateleira e colocou o coração de Ricardo dentro. Encheu o pote com um vinho tinto velho que estava jogado em um canto, fechou o pote e disse algumas palavras em uma língua estranha olhando para cima, numa espécie de ritual wicca.
Era mais um coração entre as dezenas que ali se encontravam. Sua coleção crescia a cada noite, a prateleira estava quase cheia. Jaqueline se orgulhava daquilo. Só faltava descobrir o que ia fazer com todos eles. Talvez alguma noite, aquele mistério se revelasse e ela descobrisse porque nunca sentiu seu coração bater depois da meia noite.
quinta-feira, 9 de junho de 2011
Acrilic on canvas
Ele sabia que hoje era o dia. Lutou contra todos os demônios que vivem em sua cabeça e, dessa vez, tinha perdido definitivamente a batalha que travava durante anos. Pensava que a água fria que corria pelo seu rosto eram gotas da chuva que entrava pela janela mas, na verdade, era o seu suor revelando instintos ainda desconhecidos por ele, instintos que se expressariam da forma mais torta e visceral naquela noite.
Pulou da cama como se fosse um dia especial em sua vida, como se fosse uma criança feliz acordando para arrumar sua mala para sua primeira excursão escolar.
Desceu a escada e entrou na cozinha sem ao menos ligar a luz. Abriu a terceira gaveta, pegou uma faca tão afiada que saiu faísca ao encostar sem querer abruptamente no canto da pia. Isso fez um barulho estridente de metal ecoar pela cozinha.
Sua cabeça estava tão vazia que os seus passos pareciam ser controlados por uma força sobrenatural, um demônio sanguinário preparado para satisfazer seus desejos mais obscuros sem nenhuma restrição.
Saiu pela porta da casa e andou pelo quintal com os pés descalços na grama. Seguiu até o final de rua. O condomínio La Plata parecia um hotel 5 estrelas de um filme de Hollywood. Era um cenário perfeito para executar sua obra prima do mal que vinha sendo encenada por noites a fio em seus pesadelos.
Em sua mente, um rosto estava estampado. Não sabia o nome da pessoa mas sabia todas as mentiras que ela espalhou pelas noites de festa regadas a drogas, distribuindo olhares e perverções através de frases tiradas de algum livro pornô barato. Ela morava no sexto andar ... por mais alguns minutos.
Entrou pelo prédio como se fosse um morador comum, simulando uma naturalidade impressionante. De cabeça baixa, fingindo estar preocupado com alguma coisa importante, entrou pelo elevador e apertou o botão 6 que acendeu uma luz vermelha cintilante, cor do sangue que pulsava em suas veias.
A porta do apartamento estava aberta. Como se fosse um velho espírito que habitava aquela casa e conhecia todos os cômodos, caminhou em direção ao quarto com a porta entreaberta: o quarto de sua vítima. Parecia uma tela em branco esperando um pintor inspirado chegar para descarregar sua criatividade.
Ela estava tão bonita sobre o lençol. Seus cabelos espalhados pela cama, com os seios a mostra - digno de um quadro sensual pintado por Van Gogh, o luar clareando seu rosto, espelhando uma falsa inocência que faria os mais sanguinários sentirem piedade ou, talvez, algum desejo mais sujo.
A chuva estava cada vez mais forte, parecia acompanhar o desejo de carnificina que crescia em sua mente.
Quando o primeiro trovão caiu, ele deu a primeira facada de forma maestral cortando o seu pesçoco e, em poucos segundos, o sangue se espalhava pela lençol criando uma assustadora pintura unicolor vermelha. A segunda facada veio como um casal apaixonado, juntamente com a terceira. O desejo de vingança se expressou tão forte em seu braço que o sangue se espalhava pelo quarto todo, alimentando a força necessária para executar as dezenas de facadas que estavam por vir.
Suado em um quarto com paredes tingidas de vermelho, lembrando um bordel de beira de estrada, ele pegou o coração que, misteriosamente, ainda pulsava dentro da caixa torácica e escreveu na parede: Lave-me, por favor.
Era apenas um simples homem como qualquer outro na vizinhança pela manhã. Agora, era um artista do mal que terá que alimentar seu demônio interno com doses cada vez maiores, feito um viciado em heroína, até chegar o dia da overdose moral diante os portões do inferno.
Pulou da cama como se fosse um dia especial em sua vida, como se fosse uma criança feliz acordando para arrumar sua mala para sua primeira excursão escolar.
Desceu a escada e entrou na cozinha sem ao menos ligar a luz. Abriu a terceira gaveta, pegou uma faca tão afiada que saiu faísca ao encostar sem querer abruptamente no canto da pia. Isso fez um barulho estridente de metal ecoar pela cozinha.
Sua cabeça estava tão vazia que os seus passos pareciam ser controlados por uma força sobrenatural, um demônio sanguinário preparado para satisfazer seus desejos mais obscuros sem nenhuma restrição.
Saiu pela porta da casa e andou pelo quintal com os pés descalços na grama. Seguiu até o final de rua. O condomínio La Plata parecia um hotel 5 estrelas de um filme de Hollywood. Era um cenário perfeito para executar sua obra prima do mal que vinha sendo encenada por noites a fio em seus pesadelos.
Em sua mente, um rosto estava estampado. Não sabia o nome da pessoa mas sabia todas as mentiras que ela espalhou pelas noites de festa regadas a drogas, distribuindo olhares e perverções através de frases tiradas de algum livro pornô barato. Ela morava no sexto andar ... por mais alguns minutos.
Entrou pelo prédio como se fosse um morador comum, simulando uma naturalidade impressionante. De cabeça baixa, fingindo estar preocupado com alguma coisa importante, entrou pelo elevador e apertou o botão 6 que acendeu uma luz vermelha cintilante, cor do sangue que pulsava em suas veias.
A porta do apartamento estava aberta. Como se fosse um velho espírito que habitava aquela casa e conhecia todos os cômodos, caminhou em direção ao quarto com a porta entreaberta: o quarto de sua vítima. Parecia uma tela em branco esperando um pintor inspirado chegar para descarregar sua criatividade.
Ela estava tão bonita sobre o lençol. Seus cabelos espalhados pela cama, com os seios a mostra - digno de um quadro sensual pintado por Van Gogh, o luar clareando seu rosto, espelhando uma falsa inocência que faria os mais sanguinários sentirem piedade ou, talvez, algum desejo mais sujo.
A chuva estava cada vez mais forte, parecia acompanhar o desejo de carnificina que crescia em sua mente.
Quando o primeiro trovão caiu, ele deu a primeira facada de forma maestral cortando o seu pesçoco e, em poucos segundos, o sangue se espalhava pela lençol criando uma assustadora pintura unicolor vermelha. A segunda facada veio como um casal apaixonado, juntamente com a terceira. O desejo de vingança se expressou tão forte em seu braço que o sangue se espalhava pelo quarto todo, alimentando a força necessária para executar as dezenas de facadas que estavam por vir.
Suado em um quarto com paredes tingidas de vermelho, lembrando um bordel de beira de estrada, ele pegou o coração que, misteriosamente, ainda pulsava dentro da caixa torácica e escreveu na parede: Lave-me, por favor.
Era apenas um simples homem como qualquer outro na vizinhança pela manhã. Agora, era um artista do mal que terá que alimentar seu demônio interno com doses cada vez maiores, feito um viciado em heroína, até chegar o dia da overdose moral diante os portões do inferno.
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