domingo, 12 de junho de 2011

Os corações de Jaqueline


No cair da noite, Jaqueline acendia seu Marlboro e colocava os pés na rua para mais um dia de trabalho. Cabelos tingidos de loiro com mechas vermelhas, uma roupa extremamente provocante, saltos altos vermelhos como o seu batom, que deixavam seus lábios como os da Courtney Love em seus tempos áureos antes da decadência.

Sentada na esquina, enquanto lixava suas unhas com sua lixa de metal, os homens mais bizarros que poderiam ser encontrados na noite faziam graça ao passar com o carro, menosprezando seu trabalho. Por 150 reais, fazia o serviço completo, realizava os desejos mais sujos daqueles babacas. E ela ainda tinha que suportar aquilo. Eram ossos do ofício, pensava ela.

Às duas da manhã, pára um Porsche branco em sua frente. Nunca tinha visto um daqueles tão de perto. “Ganhei o dia!”, pensou ela com um sorriso oculto em seu olhar sensual e esnobe. A porta do carro se abre e um homem de terno e gravata desce. Cabelos loiros curtos, olhos verdes e uma firmeza em seus passos que faziam ela imaginar todos os desejos que se passavam em sua mente.

Foram poucas palavras e negociações para ela entrar no carro. “Meu nome é Ricardo”, se apresentou o homem fino. Foram as únicas palavras que saíram de sua boca. O silêncio não incomodava ninguém, parecia parte do cenário daquela noite escura.

Em poucos minutos chegam ao seu destino. Ricardo estaciona em frente a uma casa enorme, com um gramado verde e bem aparado. Ele abre a porta para Jaqueline e eles entram na mansão enorme. A casa era linda por dentro, parecia uma casa que Jaqueline via em suas viagens de LSD na época em que tentou fazer uma faculdade para levar uma vida decente.

O casal sobe as escadas e entra em um quarto quente com uma cama enorme. Jaqueline observa tudo ao seu redor e começa a tirar sua roupa enquanto Ricardo a observa. Pele lisa, tatuagem em um lugar estratégico, um corpo feito para o pecado carnal. Ao deitar na cama, Ricardo tira sua roupa e se junta a ela para realizar os desejos mais sujos que se passaram em sua cabeça desde os 15 anos, quando se masturbava escondido no banheiro com as revistas pornográficas de seu tio.
Quando o ato foi consumado, Jaqueline sentiu suas veias pulsarem em seu corpo. Ia acontecer de novo. Nuvens negras esconderam a lua que iluminava o quarto pela janela e uma força incontrolável tomou seu corpo. Ela ficou de pé, nua na escuridão que invadiu o quarto que ainda tinha uma forte essência que o ato sexual libera no ar.

Pegou sua bolsa e procurou sua lixa de metal escondida entre moedas, notas amassadas e camisinhas que pegava no posto de saúde para economizar.

Com a lixa na mão deu um sorriso delicadamente infernal e caminhou em direção a cama. Subiu nela e se colocou de joelhos com as penas abertas entre o quadril de Ricardo, que dormia silenciosamente satisfeito.

Levantou a lixa e a cravou no peito de Ricardo que deu um suspiro desesperado, quase que silencioso. Jaqueline cavoucava em seu peito, como se fosse uma criança fazendo um castelo de areia na praia. Procurava por algo ali. O coração. Encontrá-lo no peito de Ricardo foi melhor que o orgasmo que tinha tido alguns minutos antes. Ela o arrancou de seu peito e o colocou dentro de sua bolsa. Vestiu sua roupa sem ao menos limpar o sangue, provas do crime fixadas em seu corpo. Desceu as escadas e fugiu no Porsche branco cantando os pneus pelas ruas.

Chegou a sua casa e, ao entrar na sala, todos os seus gatos vieram a seus pés, como súditos no inferno saudando e adorando o diabo. Ela desce para o porão, abriu um vidro vazio na prateleira e colocou o coração de Ricardo dentro. Encheu o pote com um vinho tinto velho que estava jogado em um canto, fechou o pote e disse algumas palavras em uma língua estranha olhando para cima, numa espécie de ritual wicca.

Era mais um coração entre as dezenas que ali se encontravam. Sua coleção crescia a cada noite, a prateleira estava quase cheia. Jaqueline se orgulhava daquilo. Só faltava descobrir o que ia fazer com todos eles. Talvez alguma noite, aquele mistério se revelasse e ela descobrisse porque nunca sentiu seu coração bater depois da meia noite.

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