Ele sabia que hoje era o dia. Lutou contra todos os demônios que vivem em sua cabeça e, dessa vez, tinha perdido definitivamente a batalha que travava durante anos. Pensava que a água fria que corria pelo seu rosto eram gotas da chuva que entrava pela janela mas, na verdade, era o seu suor revelando instintos ainda desconhecidos por ele, instintos que se expressariam da forma mais torta e visceral naquela noite.
Pulou da cama como se fosse um dia especial em sua vida, como se fosse uma criança feliz acordando para arrumar sua mala para sua primeira excursão escolar.
Desceu a escada e entrou na cozinha sem ao menos ligar a luz. Abriu a terceira gaveta, pegou uma faca tão afiada que saiu faísca ao encostar sem querer abruptamente no canto da pia. Isso fez um barulho estridente de metal ecoar pela cozinha.
Sua cabeça estava tão vazia que os seus passos pareciam ser controlados por uma força sobrenatural, um demônio sanguinário preparado para satisfazer seus desejos mais obscuros sem nenhuma restrição.
Saiu pela porta da casa e andou pelo quintal com os pés descalços na grama. Seguiu até o final de rua. O condomínio La Plata parecia um hotel 5 estrelas de um filme de Hollywood. Era um cenário perfeito para executar sua obra prima do mal que vinha sendo encenada por noites a fio em seus pesadelos.
Em sua mente, um rosto estava estampado. Não sabia o nome da pessoa mas sabia todas as mentiras que ela espalhou pelas noites de festa regadas a drogas, distribuindo olhares e perverções através de frases tiradas de algum livro pornô barato. Ela morava no sexto andar ... por mais alguns minutos.
Entrou pelo prédio como se fosse um morador comum, simulando uma naturalidade impressionante. De cabeça baixa, fingindo estar preocupado com alguma coisa importante, entrou pelo elevador e apertou o botão 6 que acendeu uma luz vermelha cintilante, cor do sangue que pulsava em suas veias.
A porta do apartamento estava aberta. Como se fosse um velho espírito que habitava aquela casa e conhecia todos os cômodos, caminhou em direção ao quarto com a porta entreaberta: o quarto de sua vítima. Parecia uma tela em branco esperando um pintor inspirado chegar para descarregar sua criatividade.
Ela estava tão bonita sobre o lençol. Seus cabelos espalhados pela cama, com os seios a mostra - digno de um quadro sensual pintado por Van Gogh, o luar clareando seu rosto, espelhando uma falsa inocência que faria os mais sanguinários sentirem piedade ou, talvez, algum desejo mais sujo.
A chuva estava cada vez mais forte, parecia acompanhar o desejo de carnificina que crescia em sua mente.
Quando o primeiro trovão caiu, ele deu a primeira facada de forma maestral cortando o seu pesçoco e, em poucos segundos, o sangue se espalhava pela lençol criando uma assustadora pintura unicolor vermelha. A segunda facada veio como um casal apaixonado, juntamente com a terceira. O desejo de vingança se expressou tão forte em seu braço que o sangue se espalhava pelo quarto todo, alimentando a força necessária para executar as dezenas de facadas que estavam por vir.
Suado em um quarto com paredes tingidas de vermelho, lembrando um bordel de beira de estrada, ele pegou o coração que, misteriosamente, ainda pulsava dentro da caixa torácica e escreveu na parede: Lave-me, por favor.
Era apenas um simples homem como qualquer outro na vizinhança pela manhã. Agora, era um artista do mal que terá que alimentar seu demônio interno com doses cada vez maiores, feito um viciado em heroína, até chegar o dia da overdose moral diante os portões do inferno.
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