Celestino era um homem simples, nascido e criado no campo. Seu pai morreu quando ele tinha cinco anos. Para suprir a falta que um pai faz, foi criado de forma rústica pela mãe. Filho único, cresceu um sujeito quieto e sonhador. Sua juventude inteira imaginou a amante perfeita, cada detalhe minucioso de seu corpo, olhos e cabelos.
Anos e anos se passaram até ele ver, pela primeira vez em sua vida, uma mulher que não fosse sua mãe. Gilda veio da cidade grande junto com os pais viver a vida simples e calma do campo. Logo no primeiro dia, a recém chegada família foi conhecer os novos vizinhos. Celestino ficou encantado com Gilda que sempre retribuia seus olhares com sorrisos amarelos.
A amizade entre os dois cresceu ao passar do tempo. Ficaram grandes amigos. Porém, Celestino não gostava nem um pouco quando o primo de Gilda vinha da cidade grande para visitá-la. Paulo era bonito, inteligente e tinha um carinho enorme pela prima. Ficavam o tempo todos aos beijos e abraços.
Em uma tarde de outono, Celestino e Gilda estavam sentados conversando debaixo de um pé de manga. Uma tempestade se aproximava. "Minha amada, o que quer de mim? Por você mato, roubo...embora, na maior parte do tempo, me deixe triste", disse Celestino de forma direta. "Quero provar o quanto te quero, desejo teu corpo, admiro sua exuberância e a sua existência. Me diga o que quer, por você não importa matar ou morrer". Gilda sorriu diante de toda inocência de Celestino e disse brincando: "Se é verdade sua paixão por mim, vá buscar o coração de sua mãe."
Celestino partiu correndo em direção da sua casa. A tempestade tinha chego e ele podia sentir as gotas de água batendo em seu rosto, como se fossem pedras de gelo. Como um raio na estrada sumiu. Gilda tentou alcançá-lo mas caiu no meio do caminho e ficou na estrada à chorar.
O dia escurecia mais cedo por causa da forte tempestade. Essa que não parava um segundo, tão forte quanto as batidas do coração de Celestino, prestes a realizar o desejo de sua amada. Ele abre a porta e encontra sua mãe, já uma senhora, sentada a rezar. Como se estivesse possuído por um demônio enlouquecido, rasga o peito da velhinha aos pés do altar. Um raio que caiu a quilômetros da casa iluminava a sala pela janela como se fosse a cena final de um filme de Hitchcock: ensaiada diversas vezes e finalmente acontecia de forma maestral.
Tirou do peito sangrando o coração de sua velha mãezinha e voltou a correr pela a estrada, gritando: "Sim! Agora tenho o amor dela!". Em disparada, devido a escuridão e a forte chuva, Celestino não viu um buraco e caiu, quebrando sua perna esquerda. Na queda, o pobre coração saltou de sua mão e rolou pela estrada no meio das pedras, barro e chuva. Celestino gritou de dor, raiva e decepção. Olhou para sua perna notou uma fratura exposta. Tentou esquecer a dor e encontrar o coração. Tudo ao seu redor começava a escurecer mas com muito esforço, virou sua cabeça para o lado e o encontrou. Nesse instante, a chuva parou de forma abrupta e uma voz ecoou: "Meu filho, não fique magoado. Vem me buscar, aqui estou. Ainda sou seu."
Celestino morreu de olhos abertos, olhando para o coração de sua mãe. Gilda nunca mais foi vista e os pais delas resolveram voltar para a cidade grande. Todo sangue, o coração partido, o coração arrancado...tudo isso foi muito para as pobres pessoas daquele povoado. Até hoje contam a história para os curiosos mas, quando chega a noite, rezam as mesmas orações que a pobre mãezinha fazia para que seu filho encontrasse seu verdadeiro amor.
(Baseado em Coração Materno [1937] de Vicente Celestino)
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Happy hour
Ele chegou às 5 da manhã e, ao entrar pela porta
da sala, gritou:
"Quero que todos vocês morram!". Pegou um
machado no porão, quebrou todos os espelhos da
casa, pintou todas rosas do jardim de preto,
desenhou símbolos estranhos com sangue nas
paredes e, depois, sentou-se para tomar o café
da manhã que foi preparado como se nada tivesse
acontecido. Era apenas mais um dia comum para
ele na casa de alguém que esqueceu de trancar
a porta antes de dormir.
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