quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Coração Materno

Celestino era um homem simples, nascido e criado no campo. Seu pai morreu quando ele tinha cinco anos. Para suprir a falta que um pai faz, foi criado de forma rústica pela mãe. Filho único, cresceu um sujeito quieto e sonhador. Sua juventude inteira imaginou a amante perfeita, cada detalhe minucioso de seu corpo, olhos e cabelos.

Anos e anos se passaram até ele ver, pela primeira vez em sua vida, uma mulher que não fosse sua mãe. Gilda veio da cidade grande junto com os pais viver a vida simples e calma do campo. Logo no primeiro dia, a recém chegada família foi conhecer os novos vizinhos. Celestino ficou encantado com Gilda que sempre retribuia seus olhares com sorrisos amarelos.

A amizade entre os dois cresceu ao passar do tempo. Ficaram grandes amigos. Porém, Celestino não gostava nem um pouco quando o primo de Gilda vinha da cidade grande para visitá-la. Paulo era bonito, inteligente e tinha um carinho enorme pela prima. Ficavam o tempo todos aos beijos e abraços.
 

Em uma tarde de outono, Celestino e Gilda estavam sentados conversando debaixo de um pé de manga. Uma tempestade se aproximava. "Minha amada, o que quer de mim? Por você mato, roubo...embora, na maior parte do tempo, me deixe triste", disse Celestino de forma direta. "Quero provar o quanto te quero, desejo teu corpo, admiro sua exuberância e a sua existência. Me diga o que quer, por você não importa matar ou morrer". Gilda sorriu diante de toda inocência de Celestino e disse brincando: "Se é verdade sua paixão por mim, vá buscar o coração de sua mãe."

Celestino partiu correndo em direção da sua casa. A tempestade tinha chego e ele podia sentir as gotas de água batendo em seu rosto, como se fossem pedras de gelo. Como um raio na estrada sumiu. Gilda tentou alcançá-lo mas caiu no meio do caminho e ficou na estrada à chorar.

O dia escurecia mais cedo por causa da forte tempestade. Essa que não parava um segundo, tão forte quanto as batidas do coração de Celestino, prestes a realizar o desejo de sua amada. Ele abre a porta e encontra sua mãe, já uma senhora, sentada a rezar. Como se estivesse possuído por um demônio enlouquecido, rasga o peito da velhinha aos pés do altar. Um raio que caiu a quilômetros da casa iluminava a sala pela janela como se fosse a cena final de um filme de Hitchcock: ensaiada diversas vezes e finalmente acontecia de forma maestral.

Tirou do peito sangrando o coração de sua velha mãezinha e voltou a correr pela a estrada, gritando: "Sim! Agora tenho o amor dela!". Em disparada, devido a escuridão e a forte chuva, Celestino não viu um buraco e caiu, quebrando sua perna esquerda. Na queda, o pobre coração saltou de sua mão e rolou pela estrada no meio das pedras, barro e chuva.
Celestino gritou de dor, raiva e decepção. Olhou para sua perna notou uma fratura exposta. Tentou esquecer a dor e encontrar o coração. Tudo ao seu redor começava a escurecer mas com muito esforço, virou sua cabeça para o lado e o encontrou. Nesse instante, a chuva parou de forma abrupta e uma voz ecoou: "Meu filho, não fique magoado. Vem me buscar, aqui estou. Ainda sou seu."

Celestino morreu de olhos abertos, olhando para o coração de sua mãe. Gilda nunca mais foi vista e os pais delas resolveram voltar para a cidade grande. Todo sangue, o coração partido, o coração arrancado...tudo isso foi muito para as pobres pessoas daquele povoado. Até hoje contam a história para os curiosos mas, quando chega a noite, rezam as mesmas orações que a pobre mãezinha fazia para que seu filho encontrasse seu verdadeiro amor.


(Baseado em Coração Materno [1937] de Vicente Celestino)

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